Quantos idiomas J. R. R. Tolkien criou?

A questão de quantos idiomas Tolkien construiu é muito mais difícil de ser respondida do que um ingênuo inquiridor possa imaginar. Tudo isto volta-se para definições. Pela mais estrita definição, Tolkien não criou nem um único idioma. Pela definição mais liberal, ele criou um número verdadeiramente indefinido de idiomas.

Começaremos com a suposição de que se você inventa palavras e uma gramática, o resultado PODE ser chamado de um idioma; isto não é meramente algum tipo de "arte literária" extravagante que por acaso imita a estrutura de idiomas "reais". É claro, se você insistir que um sistema de palavras e gramática não é um idioma real a menos que surja e se desenvolva mais ou menos espontaneamente em uma comunidade de pessoas que falaram este idioma por gerações, então Tolkien de modo algum criou quaisquer idiomas. Afinal de contas, as construções lingüísticas de Tolkien nunca foram a língua materna de alguém.

A resposta para a questão de "quantos idiomas?" será "zero" da mesma forma se você tem em vista idiomas tão "completos" que você pode facilmente traduzir qualquer texto nelas. Tolkien não desenvolveu uma terminologia élfica que pode ser usada para tratar de cirurgia cerebral ou física quântica. De fato, mesmo o vocabulário publicado dos mais altamente desenvolvidos idiomas élficos é bastante básico. O material que ainda não está publicado certamente irá preencher algumas das lacunas atuais caso este material esteja disponível eventualmente, mas não devemos pensar que qualquer idioma de Tolkien já fora mesmo que remotamente "completo" em termos de vocabulário. (Por outro lado, Tolkien nos deixou tanto material que, com alguma ingenuidade, pode-se desenvolver um vocabulário muito mais completo ao se começar a partir das raízes de Tolkien e ao se aplicar seus métodos de derivação. Alguns gostariam de fazer isto e, realmente, projetos preliminares estão a caminho. Outros são distintamente contra tal "fabricação" e acham que os lingüistas tolkienianos deveriam se concentrar apenas no material do próprio Tolkien; aqueles que sustentam esta opinião não estão particularmente interessados em "usar" os idiomas.)

Ao tentar contar os idiomas de Tolkien, um fator complicado é o fato de que ele revisava-os muito freqüentemente. Por exemplo, no Etimologias (um documento original pré-SdA muito importante), existem exemplos indicando que no final dos anos trinta, Tolkien usou –n como a desinência de genitivo do quenya. Contudo, enquanto escrevia o SdA, ele revisou isto, decidindo que a desinência de genitivo do quenya deveria ser, ao invés disso, –o. Isto significa que o quenya do Etimologias não é realmente o mesmo idioma que o quenya exemplificado no SdA? Eles devem ser contados como dois idiomas diferentes? Se um novo idioma nasceu a cada vez que Tolkien fez alguma revisão maior ou menor, então ele é o criador de centenas ou até milhares de idiomas.

As revisões intermináveis de Tolkien também complicam a questão de "quantos idiomas?" de outro modo. As formas mais primitivas de seus idiomas élficos foram na verdade revisados fora de suas "existências" ao longo das décadas. Por exemplo, o predecessor mais primitivo do idioma élfico de sonoridade celta, o sindarin, era chamado de gnômico — um idioma altamente desenvolvido com milhares de palavras, colocado em um dicionário por volta de 1915. Entretanto, tantas revisões separam o gnômico do sindarin que um falante do último jamais compreenderia o que um falante de gnômico estivesse dizendo. Os dois idiomas possuem relativamente poucos itens de vocabulário em comum, e importantes características gramaticais (tais como a formação de plural) também são muito diferentes. Todavia, "gnômico é sindarin" (como Christopher Tolkien coloca) no sentido especial de que o gnômico é o idioma que eventualmente evoluiu para o estilo de sindarin do SdA nas notas de Tolkien. Então nós contamos o gnômico e o sindarin como um idioma ou como dois? Há pelo menos três possíveis ângulos aqui, cada um deles perfeitamente válido e defensível:

1) Apenas consideramos os idiomas que fazem parte da forma mais ou menos "final" dos mitos de Tolkien, os idiomas conhecidos pelos povos da Terra-média; neste caso contaríamos o sindarin como um idioma e ignoraríamos o gnômico completamente. A última língua, como um corpo real de palavras e gramática, nunca foi em qualquer ponto falada no universo de Frodo Bolseiro.

2) Estamos interessados nos idiomas que Tolkien realmente criou, independente do contexto ficcional (e independentemente de Tolkien ter "rejeitado" algo ou não; suas revisões apenas significariam que temos mais idéias para estudar). Sendo assim, o gnômico e o sindarin são tão diferentes que eles devem ser claramente contados como dois idiomas completamente distintos.

3) Ainda estamos interessados apenas nos idiomas que Tolkien realmente criou e ainda não consideramos o contexto ficcional, mas nosso estudo inclui a história real do desenvolvimento dos idiomas individuais, neste caso o material sobre gnômico logicamente é incluído no nosso estudo do sindarin: não estamos satisfeitos em aprender sobre o estilo de sindarin do SdA, nós também queremos conhecer a história real deste idioma — como Tolkien o desenvolveu com o passar das décadas. Logicamente, nós então consideramos o gnômico, o sindarin e todos os estágios intermediários (tais como o "noldorin" do Etimologias) como um único idioma.

Somando-se à real evolução "externa" destes idiomas nas notas de Tolkien, há também a história fictícia "interna" para se considerar. Um aspecto altamente importante da construção de idiomas de Tolkien era o delineamento do desenvolvimento dos idiomas sobre grandes períodos de tempo; a magnífica visão de uma família de idiomática em evolução provavelmente era mais importante para ele do que mostrar em grande detalhes as formas "clássicas" destas línguas. Nas notas de Tolkien, temos o "quendian primitivo" como a suposta língua ultra primitiva fundamentando todos os idiomas élficos posteriores. Mais abaixo da linha do tempo imaginada temos entidades obscuras como "eldarin comum", "quenya pré-registrado", "sindarin pré-histórico" etc. Ao explicar as origens de certas palavras em quenya ou sindarin, Tolkien com freqüência citava formas pertencentes a estes supostos idiomas primitivos. Por exemplo, ele seguiu a palavra em quenya alda e a em sindarin galadh, ambas significando "árvore", até um original *galadâ comum (o asterisco antes da última forma indica que ela é "reconstruída" e "não-atestada"!) Ao tentarmos contar quantos idiomas Tolkien criou, incluímos as línguas primitivas "reconstruídas" que supomos fundamentar estes idiomas? Tolkien citou tantas palavras "primitivas" que o élfico pré-histórico possui mais substância real do que alguns dos idiomas do período "histórico" (ex: o pobremente atestado nandorin ou a língua "élfica silvestre").

E é claro, há o problema adicional de que o élfico primitivo não era mais imune às revisões de Tolkien do que as formas "históricas" dos idiomas élficos. Os "Léxicos" primitivos de Tolkien (1915-17) pressupõem uma visão do élfico primitivo que em alguns aspectos difere das idéias posteriores de Tolkien. Estamos tratando de um ou vários idiomas primitivos aqui? Como nós os contamos?

Então existem alguns idiomas que não possuem ligação direta com os mitos da Terra-média, antecedendo mesmo as formas mais antigas das narrativas de Tolkien. Em sua juventude, Tolkien e seus amigos brincaram com idiomas absurdos como o "animálico" e o "nevbosh"; mais tarde Tolkien criou um idioma particular chamado "naffarin", e ele também tentou extrapolar novas palavras góticas para suplementar o corpus conhecido deste idioma germânico pouco atestado. Incluímos o nevbosh, o naffarin e o neo-gótico ao tentar contar os idiomas que Tolkien construiu?

Se limitarmos o campo de interesse aos idiomas pertencentes aos mitos da Arda de Tolkien, e não considerarmos tanto os "predecessores conceituais" como as formas primitivas supostamente "reconstruídas", uma resposta satisfatória à questão "Quantos idiomas Tolkien criou?" teria que ser algo como isto:

Dois destes idiomas — quenya e sindarin, o último incorporando o material "noldorin" — são relativamente muito desenvolvidos com milhares de palavras e gramáticas compreensivas (embora apenas uma fração dos escritos gramaticais tenha sido publicada). Estes dois são os únicos idiomas de Tolkien que chegaram perto de "utilizáveis" — no sentido de que você pode escrever, com alguma facilidade, textos longos nestes idiomas se você deliberadamente evitar ou trabalhar em volta das lacunas no nosso conhecimento. O próprio Tolkien nos deixou um número de textos em quenya e sindarin relativamente substanciais, a maioria em verso. (O corpus de textos do sindarin é, contudo, muito menor do que o corpus de textos do quenya.)

Três ou quatro outros idiomas élficos, telerin, doriathrin/ilkorin e nandorin, são primeiramente conhecidos na forma de itens de vocabulário indo de cerca de 30 até algumas centenas (apenas para o telerin temos algumas frases curtas de texto real). Se estivermos lidando com a forma "clássica" dos mitos de Tolkien, alguns excluiriam o doriathrin/ilkorin da contagem: estes foram originalmente concebidos como os idiomas da Terra-média ocidental na Primeira Era, mas posteriormente Tolkien parece ter pressuposto que o sindarin era falado nesta área, o idioma de Doriath sendo simplesmente uma forma arcaica do sindarin ao invés de uma língua separada. O idioma humano adûnaico (númenoreano) primariamente se manifesta como um "relato" nunca completado de sua estrutura e desenvolvimento; apenas um punhado de frases de amostra e um vocabulário de menos de 200 palavras existe. O vocabulário conhecido para o khuzdul, o idioma dos anões, é da mesma forma pequeno, mas Tolkien mencionou que tinha esboçado este idioma em algum detalhe de estrutura (por suas próprias razões, o grupo atualmente editando o material lingüístico de Tolkien para publicação não discutirá se estas notas sobreviveram). Algumas notas muito rascunhadas apresentando certos princípios do westron, o suposto Idioma Comum "real" da Terra-média (representado pelo inglês nos livros), estão preservadas na Tolkien Collection em Marquette; uma tentativa para fazer este material ter sentido apareceu no Tyalië Tyelelliéva #17. Menos de 200 palavras em westron são conhecidas, de modo que o idioma não é de modo algum utilizável. Relata-se que uma gramática de um idioma humano chamado taliska também exista, embora nunca tenha sido publicada. (Algumas palavras humanas antigas são mencionadas em WJ: 238, 270 e 309; se este material é compatível com os escritos de Tolkien sobre o taliska, ainda não é sabido.) Incluindo o quenya e o sindarin, isto nos dá cerca de dez idiomas que possuem pelo menos um mínimo de substância e estrutura.

Existem então os idiomas que estão inteiramente fragmentados: a língua negra, o idioma de Mordor, manifesta-se apenas na inscrição do Anel, em uma única maldição órquica (para a qual Tolkien propôs várias traduções contraditórias) e como alguns itens de vocabulário isolados. O valarin, o idioma dos "Poderes" ou deuses, é de mesma forma uma língua da qual temos apenas um vislumbre: Tolkien mencionou algumas 30 palavras isoladas, mas não há uma simples frase ou expressão unindo várias palavras.

Finalmente temos os idiomas que são virtualmente ou inteiramente fictícios; mesmo por uma definição muito liberal, dificilmente faz sentido dizer que Tolkien "construiu" estes idiomas. O idioma dos rohirrim é "representado" pelo inglês antigo nas narrativas de Tolkien (assim como o inglês moderno representa o westron); muito poucas palavras "reais" do rohirric são citadas em várias fontes, mas o vocabulário publicado não eqüivale nem a dez palavras. O vocabulário conhecido do terrapardense consiste apenas de uma única palavra, forgoil = "cabeças-de-palha"; não sabemos nem como separar forgoil nos elementos que significam "palha" e "cabeça(s)". É dito que os orcs usavam muitas línguas e idiomas bárbaros entre eles mesmos, mas exceto por alguns nomes órquicos que indicam o estilo geral dessas línguas, na prática nada é conhecido sobre elas (alguns itens de vocabulário originalmente da língua negra são ditos terem se espalhado; ex: ghâsh = "fogo"). Os elfos avarin nas partes orientais da Terra-média são visto como falando muitos idiomas diferentes, mas até onde eu sei, todas as palavras que Tolkien registrou destes idiomas são seis cognatos de avarin da palavra em quenya quendi "elfos" (em seis diferentes idiomas avarin, é claro — cada uma destas línguas sem nome possui assim um vocabulário atestado de precisamente uma palavra!) Os "woses" ou homens selvagens chamavam a si mesmos de drûg e os orcs gorgûn; isto é praticamente tudo que conhecemos de sua língua. Ainda mais pobremente atestado é o idioma de Harad: Gandalf em uma ocasião disse que seu nome "no sul" era Incánus; de acordo com uma fonte esta é uma palavra do idioma dos haradrim, que significa "espião do norte". E não devemos esquecer o entês: Tolkien forneceu algumas observações muito gerais sobre sua prolixa estrutura, mas apenas uma única expressão em entês sem tradução é fornecida (e é dito que a transcrição dessa expressão é provavelmente muito inexata; nos é dito que o entês dificilmente poderia ser reduzido para a escrita).

Então, em resumo: se considerarmos as versões "históricas" das línguas que são relevantes para a forma clássica dos mitos de Arda, Tolkien desenvolveu 2 idiomas que são vagamente "utilizáveis" (no sentido de que você pode compor texto longos ao evitar deliberadamente as lacunas no nosso conhecimento); nomeou aproximadamente de 8 a 10 outros idiomas que possuem um mínimo de substância real mas não são de qualquer modo utilizáveis; forneceu meros fragmentos de pelo menos 4 outros idiomas, e aludiu a numerosos outros idiomas que ou são inteiramente fictícios ou possuem um vocabulário de apenas uma ou algumas palavras reais.

A resposta curta para a questão de "quantos idioma?" deve ser algo do tipo: "Com exceção dos extremamente fragmentados ou inteiramente fictícios, ele forneceu quantidades variadas de informação sobre cerca de dez ou doze idiomas, mas apenas dois deles são altamente desenvolvidos com vocabulários realmente substanciais".

2 comentários em “Quantos idiomas J. R. R. Tolkien criou?”

  1. O texto está muito bem escrito, parabéns! Fico com dúvida de como Peter Jackson e Cia fizeram tantos diálogos na língua negra, em especial no Hobbit. Você saberia informar da onde surgiram estes vocabulários extensos o bastante para o filme? Azog, Bolg e o Necromante gastaram o verbo! abraço!

  2. Olá pessoal. Não sei se cabe a esse tópico a pergunta que irei fazer. A algum tempo venho querendo tatuar a capa do terceiro livro do senhor dos anéis, a capa aonde tem a arvore branca, é possível acha-la na internet. Minha duvida é que nessa capa apresenta uma lingua escrira aos pés da arvore da qual eu desconheço, pensei que seria um Quenya com os traços mais retos, mas não consegui montar alguma frase usando o Quenya como tradução. Se puderem me ajudar ficarei eternamente grato. A cap esta no link a baixo, obrigado.

    http://www.livrariascuritiba.com.br/Imagens%5CLivros%5CNormal%5CLV117515_N.jpg

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Um site Valinor