Também escrito: qenya, qendya, quendya
Também chamado: alto-elfo/alto-élfico, a alta fala dos noldor, a fala antiga, a fala dos elfos de Valinor, latim-elfo/latim élfico, valinoreano, avalloniano, eressëano, parmalambë (língua dos livros), tarquesta (alta fala), nimriyê (em adûnaico), goldórin ou goldolambë (em telerin), cweneglin ou cwedhrin (em gnômico).
HISTÓRIA INTERNA
Comparado a muitas outras línguas élficas, o quenya era arcaico. Ele preservou as principais características do idioma élfico original, inventado pelos elfos quando despertaram ao lado do lago de Cuiviénen – uma língua com "muitas… palavras belas, e muitos artifícios de linguagem perspicazes" (WJ: 422). De fato, o glossário do Silmarillion se refere ao quenya como "o antigo idioma, comum a todos os elfos, na forma que adotou em Valinor", em Aman – como se o quenya fosse tão parecido com o élfico primitivo que era meramente como uma forma posterior dele, e não um idioma novo. Realmente, o élfico primitivo e o quenya podem ter sido mutualmente inteligíveis, mas não deve-se pensar que eles eram quase idênticos. Em Valinor, a antiga língua élfica passou por certas mudanças: "sua alteração …[surgiu] na criação de novas palavras (para coisas novas e velhas) e na suavização e harmonização dos sons e padrões da língua quendiana para formas que pareceram aos noldor mais belas" (WJ: 20). Os sons b e d se tornaram v e l (ou n) inicialmente, vogais finais longas foram encurtadas, vogais médias sem ênfase desapareceram com freqüência, e muitos encontros consonantais sofreram metátese ou outras mudanças, geralmente tornando-os mais fáceis de se pronunciar. O quenya também adotou e adaptou algumas palavras do idioma dos governantes de Aman – os Valar, os Poderes Angelicais protegendo o mundo em nome de seu Criador. Entretanto, os próprios Valar encorajaram os elfos a "criar novas palavras de seu próprio estilo, ou…traduzir o significado de nomes em belas formas Eldarin" ao invés de manter ou adaptar palavras do valarin (WJ: 405). É observado que os noldor "eram criativos na fala, pois tinham um amor imenso pelas palavras e sempre procuravam descobrir nomes mais adequados para todas as coisas que conheciam ou imaginavam" (Silm. cap. 5).
Em Aman, o quenya não era falado apenas pelos vanyar e noldor, mas também pelos Valar: "os Valar parecem rapidamente ter adotado o quenya" após a chegada dos elfos, e sua própria língua, o valarin, não era freqüentemente ouvido pelos Eldar: "De fato é dito que com freqüência os Valar e Maiar podiam se ouvidos falando quenya entre eles mesmos" (WJ: 305). Pengolodh, o sábio de Gondolin, observa: "nas histórias os Valar são sempre apresentados falando quenya em todas as circunstâncias. Mas isto não pode proceder da tradução dos Eldar, poucos dos quais conheciam o valarin. A tradução deve ter sido feita pelos próprios Valar ou Maiar. De fato estas histórias ou lendas que lidam com épocas anteriores ao despertar dos quendi, ou com o passado remoto, ou com coisas que os Eldar não poderiam ter conhecido, devem ter sido apresentadas desde o começo em quenya pelos Valar ou pelos Maiar quando eles instruíram os Eldar." Ele menciona o Ainulindalë como um exemplo: "ele deve…ter sido desde o início nos apresentado não apenas em palavras do quenya, mas também de acordo com as nossas de pensamento". Realmente, mesmo Melkor aprendeu o quenya, e aprendeu bem. "Ah!", diz Pengolodh, "em Valinor Melkor usava o Quenya com tal maestria que todos os Eldar ficavam impressionados, pois seu uso não podia ser melhorado, raramente sequer igualado, pelos poetas e pelos mestres de tradição". (VT39: 27)
Quando Rúmil inventou as letras, o quenya se tornou o primeiro idioma a ser registrado na escrita (Silm. cap. 6, SdA Apêndice F). Mas fora do Reino Abençoado de Aman, o quenya jamais teria sido conhecido se não fosse pela rebelião dos noldor na Primeira Era. A maior parte deste clã deixou Aman e foi para o exílio na Terra-média, levando a língua do alto-élfico com eles. Na Terra-média os noldor em muito eram superados em número pelos sindar ou elfos-cinzentos nativos, que falavam um idioma claramente relacionado, mas ainda assim muito diferente. A língua sindarin havia há muito tempo eliminado as declinações de casos que ainda eram preservadas no quenya, e o som geral destes dois idiomas diferia muito – o quenya era muito mais vocálico que o sindarin e possuía uma distribuição muito limitada de b, d, g sonoros, que eram freqüentes em sindarin. Como isto desapareceu, "os noldor… aprenderam rapidamente o idioma de Beleriand [isto é, o sindarin], enquanto que os sindar eram vagarosos para dominar a língua de Valinor [isto é, o quenya]". Vinte anos após a chegada dos noldor à Terra-média, "a língua dos elfos-cinzentos era a mais falada, mesmo pelos noldor" (Silm. cap. 13). Quando o rei Thingol de Doriath finalmente soube que os noldor haviam assassinado muitos de seus parentes entre os teleri e roubado seus navios quando deixaram Valinor, ele proibiu o uso do quenya por todo o seu reino. Consequentemente, "os Exilados adotaram o idioma sindarin em todos os seus usos correntes; e alta-fala do oeste era usada apenas pelos senhores dos noldor entre si. Ela sobreviveu, porém, para sempre como a língua de tradição, não importa onde morasse qualquer indivíduo daquele povo" (Silm. cap. 15).
Assim o quenya sobreviveu, mesmo na escura Primeira Era. Na realidade, o vocabulário expandido: os noldor adotaram e adaptaram algumas palavras de outras línguas, tais como Casar "anão" da palavra Khazad do idioma anão e certa "runa" do sindarin certh (WJ: 388, 396). Algumas palavras já em uso desenvolveram novos significados ou modificaram outros em quenya exílico, tais como urco, uma palavra que em quenya valinoreano era usado para "qualquer coisa que causasse medo aos elfos, qualquer sombra ou forma duvidosa, ou criatura vagante" que eram lembradas em contos antigos da Marcha a partir de Cuiviénen. Em quenya exílico, entretanto, urco foi reconhecido como um cognato do sindarin orch e era usado para traduzí-la; assim, o significado de urco era agora simplesmente "orc" (WJ: 390; a forma influenciada pelo sindarin, orco, também era usada). Quando os Edain chegaram em Beleriand, eles não aprenderam apenas sindarin, mas "também, até certo ponto, o quenya" (WJ: 410). Embora o quenya "nunca tenha sido um idioma falado entre os homens" (Carta Plotz), nomes alto-élficos como Elendil se tornaram populares entre os Edain. Túrin deu a si próprio o nome em quenya de Turambar ou "Mestre do Destino", e sua irmã Nienor gritou algumas palavras em alto-elfo antes de se matar (Silm. cap. 21).
Existem também numerosos exemplos do quenya sendo usado ou lembrado pelos próprios exilados noldorin: quando Turgon construiu sua cidade oculta, "ele determinou seu nome como Ondolindë no idioma dos elfos de Valinor", embora a forma adaptada em sindarin, Gondolin, tenha se tornado o nome usual da cidade. Mesmo em Gondolin, o quenya "havia se tornado o idioma dos livros" para a maioria das pessoas, "e como os outros noldor, eles usavam o sindarin na fala cotidiana". Apesar disso, Tuor ouviu o guarda de Gondolin falar "na alta-fala dos noldor, a qual ele não conhecia". Também é observado que "o quenya era de uso diário na casa de Turgon, e era a fala da infância de Eärendil" (CI: 460). PM: 348 confirma que "Turgon, após sua fundação da cidade secreta de Gondolin, restabeleceu o quenya como o idioma de uso diário em sua família". Aredhel partiu de Gondolin e foi capturada por Eöl, ao qual ela deu um filho, e "no íntimo, ela lhe deu um nome na língua proibida dos noldor, Lómion, que significa Filho do Crepúsculo" (Silm cap. 16). Eöl posteriormente chamou seu filho pelo nome em sindarin Maeglin, mas Aredhel "ensinou a Maeglin o quenya, embora Eöl a tivesse proibido" (WJ: 337).
Contudo, o quenya falado pelos Exilados logo passou por algumas mudanças menores, provavelmente antes que o édito de Thingol contra seu uso congelasse amplamente todos os processos de mudanças lingüísticas. Em uma carta a Dick Plotz, Tolkien descreveu a declinação do substantivo de uma forma antiga de quenya, chamada "quenya livresco". Tolkien escreve que "até o ponto em que era conhecido pelos homens [mortais] – pelos sábios númenoreanos, e pelos os que destes sobreviveram em Gondor [na Terceira Era] – estas eram as formas usadas na escrita". Mas adiante ele observa: "o quenya como um idioma falado foi modificado até um certo ponto entre os noldor antes de deixar de ser uma língua de nascimento [isto é, no início de seu exílio]… Nesta forma 'coloquial' ele continuou a ser falado entre os elfos de origem noldorin, mas foi preservado de mudanças adicionais, uma vez que ele era aprendido novamente pela escrita por cada geração". A implicação parece ser de que esta forma "coloquial" também poderia ser usada na escrita, e que este era o quenya das obras pelas quais cada geração aprendeu o idioma novamente. Estas seriam as obras escritas pelos noldor durante seu exílio, após seu idioma ter levemente divergido do quenya amaniano (em particular pela perda do caso acusativo): "condições exílicas…tornaram necessária a reescrita de memória de muitas obras de tradição e canções pré-exílicas" (PM: 332). Os eruditos númenoreanos podem ter apanhado uma forma mais arcaica do quenya porque eles estavam em contato com os Eldar de Eressëa e Valinor, e não apenas com os exilados noldorin na Terra-média. Hoje, a maioria dos escritores não usa o quenya livresco, mas a forma exílica noldorin do alto-élfico, o idioma do Lamento de Galadriel (SdA1/II cap. 8).
A Primeira Era terminou na Guerra da Ira. No início da Segunda Era, alguns dos noldor retornaram para Aman, "mas alguns permaneceram muitas eras na Terra-média" (Silm. cap. 24). Assim, falantes nativos do quenya ainda estavam presentes nas Terra de Cá. Realmente, mesmo seu maior inimigo criou um nome em quenya para si mesmo quando ele apareceu aos elfos em uma bela forma para enganá-los: Annatar, o Senhor dos Presentes (Dos Anéis de Poder no Silm). Seu nome real também era em quenya, mas bem pode ser compreendido que ele não gostava dele: Sauron, o Abominável (ver o Glossário do Silm). Posteriormente, os artífices de Eregion deram nomes em quenya para suas maiores obras: Narya, Nenya, e Vilya, os maiores dos Anéis de Poder exceto pelo próprio Um Anel.
Porém, a história da Segunda Era é dominada pela saga de Númenor, a grande ilha dada aos Edain pelos Valar. Originalmente todos os Edain eram amigos dos elfos, e a maioria deles conhecia o sindarin (embora o idioma de uso diário dos númenorea- nos fosse o adûnaico, uma língua humana). Nos é dito que "os mestres de tradição entre eles aprenderam também o alto-elda- rin do Reino Abençoado, idioma no qual grande volume de prosa e verso foi preservado desde o início do mundo… por isso, ocorreu que, além de seus próprios nomes, todos os senhores dos númenóreanos também tinham nomes em Eldarin [quenya e/ou sindarin]; e o mesmo acontecia com as cidades e os belos lugares que fundaram em Númenor e nas costas das Terras de Cá" (Akallabêth). Exemplos de nomes em quenya em Númenor incluem Meneltarma, Armenelos, Rómenna e o próprio nome Númenor. Ainda permaneceu o fato de que "o quenya não era uma língua falada em Númenor. Era conhecido apenas dos eruditos e das famílias de alta linhagem, a quem se ensinava no início da adolescência. Era usado em documentos oficiais destinados a serem preservados, tais como as Leis, e no Pergaminho e nos Anais dos Reis…, e freqüentemente em obras de tradição mais recônditas. Também se usava largamente na nomenclatura: os nomes oficiais de todos os lugares, regiões e acidentes geográficos da terra tinham forma quenya (se bem que tinham também nomes locais, geralmente com o mesmo significado, em sindarin ou adûnaico [númenoreano]). Os nomes pessoais, e especialmente os nomes oficiais e públicos, de todos os membros da casa real, e da Linhagem de Elros em geral, eram dados em forma quenya" (CI: 471). Os Reis assumiam nomes em quenya porque o alto-élfico era "o idioma mais nobre do mundo" (CI: 247). Entretanto, com o tempo, as coisas mudariam.
Os númenoreanos começaram a invejar a imortalidade dos elfos, e a amizade com Aman gradualmente esfriou. Quando o vigésimo rei de Númenor ascendeu ao trono no ano 2899 da Segunda Era, ele rompeu com o antigo costume e tomou o cetro com um título em adûnaico ao invés de quenya: Ar-Adûnakhôr, Senhor do Oeste. No seu reinado "os idiomas élficos não foram mais usados, nem se permitiu que fossem ensinados, mas foram mantidos em segredo pelos Fiéis. E daí em diante os navios de Eressëa passaram a vir às praias ocidentais de Númenor raramente e em segredo" (CI: 252). Em 3102 Ar-Gimilzôr se tornou o vigésimo terceiro rei, e ele "proibiu totalmente o uso dos idiomas Eldarin, não permitia que nenhum dos Eldar viesse ao país e punia aqueles que os recebiam" (CI: 253). Realmente "as línguas élficas foram proibidas pelos reis rebeldes, e apenas se permitia que o adûnaico fosse usado, e muitos dos antigos livros em quenya ou em sindarin foram destruídos" (PM: 315).
De qualquer forma, o filho de Gimilzôr, Inziladûn, provou ser de uma personalidade muito diferente quando se tornou rei em 3177 (ou em 3175 de acordo com uma fonte – ver CI: 477). Ele se arrependeu pelos modos dos reis antes dele e assumiu um título em quenya de acordo com o antigo costume: Tar-Palantir, O Que Olha ao Longe. Tar-Palantir "de bom grado teria retornado à amizade dos Eldar e dos Senhores do Oeste", mas era tarde demais (CI: 253). Sua única filha, ele chamou de Míriel em quenya. Ela deveria ter sido Rainha Governante após sua morte em 3255, mas ela foi forçada a se casar com Pharazôn, filho do irmão de Tar-Palantir, Gimilkhâd. Pharazôn tomou-a por esposa contra a vontade dela para usurpar o cetro de Númenor. Evidentemente ele não podia aceitar o nome em quenya dela e o mudou para Zimraphel em adûnaico. Orgulhoso e arrogante, Ar-Pharazôn desafiou Sauron na Terra-média. O Maia malicioso dissimuladamente fingiu se render, e portanto Pharazôn "na loucura de seu orgulho, levou-o como prisioneiro para Númenor. Não demorou muito para que ele enfeitiçasse o rei e se tornasse mestre de seu conselho; e logo arrebatou o coração de todos os númenoreanos, exceto os remanescentes dos Fiéis, de volta à escuridão" (SdA Apêndice A). Sauron fez o rei acreditar que ele se tornaria imortal se conseguisse arrancar a soberania de Aman dos Valar, e eventualmente Pharazôn tentou invadir o Reino Abençoado. Como Sauron bem sabia, os númenoreanos jamais poderiam conquistar os Poderes, e como ele havia previsto, a armada de Pharazôn foi totalmente derrotada. Contudo, Sauron não previu que os Valar invocariam o Próprio Um, e que Ele usaria Seus poderes para mudar toda a forma do mundo. O Reino Abençoado foi removido do mundo visível para o reino das coisas ocultas, e com ele foram todos os falantes nativos de quenya, com exceção daqueles dos noldor que se demoraram na Terra-média. A própria Númenor desapareceu no mar, e nunca saberemos o número de livros escritos em quenya que foram perdidos na ruína da Ilha dos Reis. À ilha submersa foram dados novos nomes em alto-élfico: Mar-nu-Falmar, Terra (lit. Casa) sob as Ondas, e Atalantë, a Caída.
Os únicos sobreviventes da Queda foram Elendil, Isildur, Anárion e aqueles que os seguiram em seus navios. Como seus nomes em quenya revelam, eles eram amigos-dos-elfos e não tomaram parte na rebelião contra os Valar. Na Terra-média eles fundaram os Reinos em Exílio, Arnor e Gondor. Sauron logo atacou Gondor, mas ele foi derrotado na Batalha de Dagorlad, e após sete anos de cerco ele teve que deixar Barad-dûr e foi morto por Gil-galad, Elendil, e Isildur; apenas o último destes sobreviveu. Assim terminou a Segunda Era do Mundo, mas os Reinos em Exílio sobreviveram na Terceira Era, e entre os eruditos de Arnor e Gondor, o conhecimento do quenya foi preservado.
Os reis de Arnor e Gondor usavam nomes em quenya, assim como os fiéis reis númenoreanos de antigamente. (861 anos após o início da Terceira Era, entretanto, Arnor foi dividido nos pequenos reinos de Arthedain, Rhudaur e Cardolan; os reis destes reinos usavam nomes em sindarin.) Os Regentes de Gondor também usavam nomes em quenya até a época de Mardil, o primeiro dos Regentes Governantes (assim chamados porque não havia rei em Gondor no período entre 2050-3019 da Terceira Era, e os Regentes tiveram que assumir todas as responsabilidades). Contudo, os sucessores de Mardil deixaram de usar nomes alto-élficos. Os Regentes nunca assumiram o título de Rei, e eles podem ter pensado que seria presunçoso usar nomes em quenya à maneira dos reis. Mas quando Aragorn foi coroado Rei em 3019, ele chamou a si mesmo de Elessar Telcontar em quenya, seguindo o antigo costume. Então a Quarta Era começou, e os últimos dos noldor partiram dos Portos e deixaram a Terra-média para sempre, retornando a Aman. Os últimos falantes nativos do quenya haviam partido do nosso mundo, mas como Gandalf mostrou a Aragorn, era sua tarefa "preservar o que possa ser preservado" (SdA3/VI cap. 5) – incluindo o conhecimento dos idiomas Eldarin. Sabemos que Aragorn deu um nome alto-élfico a seu filho Eldarion, que o sucedeu no trono de Gondor quando ele morreu no ano 120 da Quarta Era. Embora pouco seja conhecido sobre esta Era, há pouca dúvida de que, enquanto o reino de Gondor perdurou, o quenya foi lembrado.
Designações do idioma
O quenya também chamado parmalambë "a língua dos livros" e tarquesta "alta fala" (LR: 172; cf. "a alta fala dos noldor" em CI: 39). Como o quenya se originou em Valinor, ele também pode ser chamado valinoreano (SdA3/V cap. 8) ou "o idioma dos elfos de Valinor" (Silm. cap. 15). Após o final da Primeira Era, muitos noldor habitaram a ilha de Tol Eressëa, próxima à costa de Aman. Portanto, o quenya também é conhecido como eressëano, ou avalloniano segundo a cidade eresseäna de Avallónë (LR: 41, SD: 241). Para os teleri amanianos, o quenya era goldórin ou goldolambë, evidentemente significando "noldoico" e "língua noldo", respectivamente (WJ: 375). Em gnômico, a primeira tentativa de Tolkien para reconstruir o idioma que muito depois se tornou o sindarin, a palavra para quenya ("qenya") era cweneglin ou cwedhrin, mas estas palavras certamente não são válidas em sindarin maduro (Parma Eldalamberon No. 11 pág. 28). O elfo Gildor se referiu ao quenya como "a língua antiga" (SdA1/I cap. 3), e sendo o idioma mais prestigiado no mundo, ele também é chamado "a alta fala do oeste", "a alta língua Eldarin" (Silm. cap. 15, Akallabêth) ou "alto-élfico antigo" (WR: 160).Pelos númenóreanos, o quenya era chamado nimriyê ou "língua nimrian", assim como os Dúnedain chamavam os elfos de Nimîr, os Belos. (SD: 414, cf. WJ: 386). Posteriormente, Frodo se referiu ao quenya com "a língua antiga dos elfos de além mar" e "o idioma… de canções élficas". (SdA1/II cap. 8) Em inglês, Tolkien também usou designações como "alto-elfo" (ocasionalmente no Letters: "alto-élfico") e "latim-elfo, latim élfico" (Letters pág. 176). Na Terra-média, o quenya eventualmente se tornou um idioma de cerimônia e tradição, de modo que Tolkien o considerou comparável ao latim na Europa.
HISTÓRIA EXTERNA
Durante sua vida, Tolkien continuou a refinar o idioma alto-élfico, que de acordo com seu filho Christopher era "um idioma como ele queria, o idioma de seu coração" (do programa de TV: J.R.R. Tolkien – Um Retrato, pela Landseer Productions). Em uma de suas cartas, o próprio Tolkien escreveu: "o idioma arcaico de tradição tinha a intenção de ser um tipo de 'latim elfo', e ao transcrevê-lo em uma ortografia muito parecida com a do latim… a similaridade com o latim foi visualmente aumentada. Na verdade, pode-se dizer que ele foi composto sobre uma base latina com dois outros (principais) ingredientes que davam prazer 'fonoestético': o finlandês e o grego. Ele é, contudo, menos consonantal do que quaisquer dos outros três. Este idioma é o alto elfo ou, em seus próprios termos, quenya (élfico)" (Letters: 176). O quenya foi o experimento final em eufonia e fonoestética, e de acordo com o gosto de muitos, ele foi um sucesso glorioso. A estrutura gramatical, envolvendo um grande número de casos e outras declinações, é claramente inspirada pelo latim e pelo finlandês.
A amostra mais longa de quenya n'O Senhor dos Anéis é o Lamento de Galadriel, isto é, o poema Namárië perto do final do capítulo Adeus à Lórien (SdA1/II cap. 8, começando com Ai! laurië lantar lassi súrinen…) Muitos dos exemplos referidos na seguinte discussão são tirados deste poema. Outros textos importantes em quenya incluem o poema Markirya em MC: 222-223 e a Canção de Fíriel em LR: 72, embora a gramática do último se diferencia um pouco do quenya no estilo do SdA; ele representa uma das variantes de Tolkien do "qenya" primitivo. (O Markirya é bem tardio e completamente confiável.)
A ESTRUTURA DO QUENYA: UMA BREVE ANÁLISE
Fonologia elementar
Note que na ortografia do quenya, a letra c é sempre pronunciada k (assim, cirya "navio" = kirya). Tolkien era inconsistentes sobre isto; em muitas fontes a letra k é usada, mas no SdA ele decidiu escrever o quenya tão parecido com o latim quanto possível. Em alguns casos, o k nas nas fontes foi regularizado para c na seguinte discussão.
O substantivo
O nominativo singular é a forma básica não declinada do substantivo; ele não possui nenhuma desinência especial. A função típica de um substantivo nominativo é ser o sujeito do verbo, como lómë "noite" ou aurë "dia" nos gritos ouvidos antes e durante a Nirnaeth Arnoediad: Auta i lómë! "A noite está passando!" Aurë entuluva! "O dia virá novamente!" (Silmarillion capítulo 20).
O quenya como falado em Valinor possuía um acusativo que era formado pelo alongamento da vogal final do substantivo: cirya "navio" (nominativo), ciryá "navio" (acusativo). Os substantivos terminando em uma consoante presumidamente não possuíam acusativo distinto. No plural, mesmo os substantivos terminando em uma vogal possuíam a desinência i; ex: ciryai "navios" (nominativo ciryar). A função do acusativo era primeiramente indicar que o substantivo era o objeto de um verbo; não temos exemplos, mas pode-se construir algo como haryan ciryá, "eu tenho um navio" (haryan ciryai "eu tenho [vários] navios"). Mas na Terra-média, o caso acusativo distinto desapareceu da fala dos noldor (tais coisas acontecem quando você está ocupado enfrentando orcs, balrogs e dragões), e o nominativo assumiu suas antigas funções. Desse modo, de agora em diante está certo dizer haryan cirya, haryan ciryar. Escritores modernos parecem nunca usar o acusativo distinto.
O genitivo possui a desinência –o, geralmente correspondendo à preposição de do português. Um exemplo do Namárië é Vardo tellumar "abóbadas de Varda". Note que a desinência –o retira o –a final, portanto Vardo, e não Vardao – mas a maioria das outras vogais (parece) não são retiradas: Em MR: 329 encontramos Eruo para "do Um, de Eru". (Se o substantivo já termina em –o, a desinência se torna "invisível"; geralmente o contexto indicará que o substantivo é um genitivo e não um nominativo. Um exemplo atestado é Indis i Ciryamo "a esposa do marinheiro"; cf. ciryamo "marinheiro".) Raramente o genitivo carrega o significado "de (algum lugar)", cf. Oiolossëo "do Monte Semprebranco, de Oiolossë" no Namárië – mas isto geralmente é expresso por meio do caso ablativo (veja abaixo). A desinência genitiva plural é –on, que pode ser observada no título Silmarillion, "das Silmarils", a expressão completa sendo Quenta Silmarillion, "(a) História das Silmarils". Um exemplo do Namárië é rámar aldaron, "asas das árvores", uma circunlocução poética para "folhas". A desinência –on é adicionada, não à forma mais simples do substantivo, mas ao nominativo plural. Assim, embora "árvore" seja alda, "das árvores" não é **aldon, mas aldaron porque o nominativo plural "árvores" é aldar. Cf. também Silmaril, plural Silmarilli, genitivo Silmarillion. (A duplicação do l final de Silmaril antes de uma desinência é um exemplo de variação de radical; alguns radicais mudam levemente quando uma desinência é adicionada, freqüentemente refletindo uma forma mais antiga do substantivo.)
Há então o possessivo, por alguns chamado "associativo" ou "caso adjetivo"; o próprio Tolkien fala dele como um "genitivo… possessivo-adjetivo" em WJ: 369. Esta caso possui a desinência –va (-wa em substantivos terminando em uma consoante). Sua função geral é como a do genitivo do português, para expressar posse: Mindon Eldaliéva "Torre dos Eldalië". A função do possessivo por muito tempo pouco compreendida. No Namárië ele ocorre na expressão yuldar…miruvóreva, "goles… de hidromel". Este exemplo, que por mais de vinte anos foi o único que tivemos, fez muitos concluírem que a função deste caso era mostrar do que alguma coisa é composta – realmente, o caso em si era chamado "compositivo". Felizmente, The War of the Jewels págs. 368-369 finalmente nos deu a explicação do próprio Tolkien das funções mais normais deste caso, e como ele difere do genitivo. O possessivo pode, como já observado, indicar posse ou propriedade. Tolkien dá o exemplo róma Oroméva, "trompa de Oromë", usado como uma trompa que pertenceu/pertence a Oromë no momento em que está sendo narrado (passado ou presente). O genitivo róma Oromëo também se traduziria como "trompa de Oromë", mas significaria propriamente "uma trompa vindo de Oromë", implicando que a trompa deixou a posse de Oromë no momento em que se narra. Contudo, o genitivo se introduziu nas funções do possessivo em eras posteriores. Cf. o genitivo Vardo tellumar, e não possessivo *tellumar Vardava, para "abóbadas de Varda" no Namárië (se o genitivo não implica que as abóbadas se originaram de Varda, mostra que ela as possui).
O dativo possui a desinência –n. Este desinência geralmente traduz a preposição "para"; o pronome dativo nin "para mim" (de ni "eu") é encontrado no Namárië: Sí man i yulma nin enquantuva? "Quem agora reencherá a taça para mim?" Com freqüência o dativo corresponde a um objeto indireto em português: *i nís antanë i hínan anna, "a mulher deu à criança um presente".
O locativo possui a desinência –ssë, que transmite o significado de "em" ou "no". Na versão em Tengwar do Namárië que é encontrada em RGEO, o poema possui o sobrescrito Altariello Nainië Lóriendessë, "Lamento de Galadriel em Lóriendë (Lórien)". No plural, esta desinência possui a forma –ssen, vista na palavra mahalmassen "nos tronos" em CI: 340 cf. 498 (mahalma "trono"). Esta desinência também ocorre no pronome relativo ya no Namárië: yassen "onde, nas quais" (Vardo tellumar…yassen tintilar i eleni, *"abóbadas de Varda… onde as estrelas tremem"). Referindo-se a uma palavra no singular, "na qual" seria presumidamente yassë. O uso de desinências casuais ao invés de preposições para expressar "em, de, para, com" (cf. os próximos parágrafos) é um aspecto característico da gramática do quenya.
O ablativo possui a desinência –llo, que significa "de (proveniente de)" ou "fora de". Um exemplo tirado do Namárië é sindanóriello, "de uma terra (a tradução mais correta seria "país") cinzenta" (sinda-nórie-llo: "cinza-país-de"). Há também a palavra Rómello, *"do leste", contração de *Rómenello (Rómen "[o] leste"). Cf. também a palavra Ondolindello "de Ondolindë (Gondolin)" em J. R. R. Tolkien – Artist and Illustrator pág. 193.
O alativo possui a desinência –nna, significando "para", "para dentro" ou "em, sobre". Tanto o ablativo como o alativo são exemplificados nas palavras ditas por Elendil quando ele foi para a Terra-média após a Queda de Númenor, repetidas por Aragorn em sua coroação (SdA3/VI cap. 5): Et Eärello Endorenna utúlien. "Do Grande [lit. para fora do] Mar vim para a Terra-média" (Endor(e)-nna "Terra-média-para"). O alativo também pode transmitir o significado "sobre"; cf. i falmalinnar "sobre as ondas espumantes" no Namárië (-linnar sendo a desinência para o plural partitivo do alativo; ver abaixo).
O caso instrumental possui a desinência –nen e indica o instrumento com o qual alguma coisa é feita, ou simplesmente a razão pela qual alguma coisa acontece. Exemplos do Namárië são laurië lantar lassi súrinen,"como ouro caem [as] folhas ao vento", i eleni [tintilar] airetári-lírinen, "as estrelas tremem na canção de sua voz, de santa e rainha", literalmente *"as estrelas tremem pela canção da rainha sagrada". Um exemplo de um "instrumental" mais típico é fornecido pela frase i carir quettar ómainen, "aqueles que formam palavras com vozes" (WJ: 391), ómainen sendo o plural instrumental de óma "voz".
Respectivo (?): assim é chamado um caso que é listado em uma carta que Tolkien enviou a Dick Plotz na segunda metade dos anos sessenta (a chamada Carta Plotz é de fato nossa principal fonte de informação sobre os casos do quenya). A desinência é –s (plural –is), mas Tolkien não identificou esta caso por qualquer nome, e nunca o vimos usado em um texto. Sua função é, portanto, completamente desconhecida; na verdade, ele tem sido chamado de Caso Misterioso. Alguns escritores o usaram simplesmente como um desinência locativa alternativa. Posteriormente eles não tiveram nenhuma visita noturna de, então talvez isto seja aceitável para ele.
Se as desinências casuais são adicionadas a um substantivo terminando em uma consoante, um e é freqüentemente inserido entre o substantivo e a desinência para evitar que um encontro difícil surja: Elendil com a desinência alativa –nna "para" se torna Elendilenna "para Elendil" (PM: 401), e não **Elendilnna. Contudo, se o substantivo está no plural, um i é inserido entre o substantivo e a desinência: elenillor "das estrelas" (elen "estrela") (MC: 222).
As flexões de números do quenya: as flexões de números são singular, plural, plural partitivo e dual. O singular e o plural não precisam de explicação. A função do plural partitivo (assim chamado por Tolkien em WJ: 388) em oposição ao plural normal não é totalmente compreendida, mas parece que ele indica alguns dentre um grupo maior. Combinado com o artigo definido i, ele pode simplesmente indicar "muitos": o elemento li na expressão i falmalinnar "sobre as ondas espuman- tes" no Namárië foi traduzida "muitas" por Tolkien em sua tradução entrelinhas em RGEO: 66-67. Visto que –li é a desinência para o plural partitivo, por muito tempo ele foi chamado de "plural múltiplo"; de fato foi pensado que ele simplesmente significaria "muitos" da coisa em questão, enquanto que o plural normal significaria apenas "vários". Isto pode estar correto em alguns casos, mas não pode ser toda a história. O dual é usado com referência a um par natural, como duas mãos pertencentes a uma pessoa (cf. a palavra máryat "suas mãos" no Namárië, o –t sendo uma desinência dual, literalmente "seu par de mãos").
O plural nominativo é formado com uma de duas desinências. A desinência -r é usada se o substantivo termina em qualquer vogal exceto –ë; exemplos bem conhecidos são Vala pl. Valar, Elda pl. Eldar, Ainu pl. Ainur. Se o substantivo termina em uma consoante ou em –ë, a desinência de plural é –i, e ela substitui o –ë final: Atan pl. Atani, Quendë pl. Quendi. (Mas se o substantivo termina em –ië, ele forma seu plural em –r para evitar um i após o outro: tië "caminho", tier "caminhos" – e não **tii.) Nos outros casos, a desinência de plural é –r ou –n; por exemplo, a desinência alativa –nna possui uma forma plural –nnar, a desinência locativa –ssë se torna –ssen, e o ablativo –llo pode formar seu plural tanto em –llon como em –llor. No dativo, no instrumental e no "respectivo", o plural é indicado pelo elemento i, inserido entre o radical do substantivo e a mesma desinência casual como no singular. (Ver a lista completa de desinências abaixo.)
O plural partitivo possui a desinência –li, presumidamente *-eli em um substantivo terminando em uma consoante, mas uma contração ou uma forma assimilada também pode ser usada (por exemplo, o plural partitivo de casar "anão" é casalli, para *casarli). As desinências para outros casos são simplesmente adicionadas após a desinência –li; ex: ciryali "alguns navios" > alativo ciryalinna (ou ciryalinnar) "para alguns navios". Note, entretanto, que a vogal de –li é alongada antes das desinências –va e –nen para o possessivo e o instrumental, respectivamente: –líva, –línen.
Assim como o plural nominativo, o dual nominativo é formado com uma de duas desinências. A maioria dos substantivos leva a desinência –t, como na palavra máryat "suas mãos" (duas mãos, um par de mãos) no Namárië. "Dois navios, um par de navios" é, da mesma forma, ciryat (cirya "navio"). Mas se a última consoante do radical for t ou d, a desinência –u é preferida: Alda "árvore", Aldu "as Duas Árvores". Nos outros casos, um t é de algum modo inserido em ou adicionado a várias desinências; por exemplo, as desinências –ssë, –nna e –llo para locativo, alativo e ablativo, respectivamente, se tornam –tsë, –nta e –lto (ciryatsë, ciryanta, ciryalto = "em/para/de um par de navios"). A desinência instrumental –nen se torna –nten, enquanto que a desinência dativa –n se torna –nt (ciryant "a um par de navios" – este é, a propósito, o único caso conhecido de um encontro consonantal sendo permitido no final de uma palavra em quenya).
Estas são, então, as desinências casuais do quenya:
Nominativo: Sg. sem desinência, pl. –r ou –i, part. pl. –li (quenya livresco –lí), dual –t ou –u.
Acusativo (apenas em quenya livresco): Sg. alongamento da vogal final (se houver), pl. –i, pl. part. lí, dual: provavelmente alongamento do u final para ú (nenhum acusativo distinto no caso de t-duais?)
Dativo: Sg. –n, pl. –in, pl. part. -lin, dual –nt (mas possivelmente –en sucedendo uma dual em –u)
Genitivo: Sg. –o, pl. –on (adicionada ao pl. nom.), pl. part. –lion, dual –to.
Possessivo: Sg. –va, pl. –iva, pl. part. –líva, dual –twa.
Locativo: Sg. –ssë, pl. –ssen, pl. part. –lisse(n), dual –tsë.
Alativo: Sg. –nna, pl. –nnar, pl. part. –linna(r), dual –nta.
Ablativo: Sg. –llo, pl. –llon ou –llor, pl. part. –lillo(n), dual –lto.
Instrumental: Sg. –nen, pl. –inen, pl. part. –línen, dual –nten.
Respectivo: Sg. –s, pl. –is, pl. part. –lis, dual –tes.
(Ver o Apêndice para exemplos de substantivos do quenya declinados em todos os casos.)
O artigo
O verbo
O segundo e maior grupo de verbos do quenya pode ser chamado de radicais A, ou verbos derivados. Todos eles mostram a vogal final –a, mas ela não é parte da raiz básica; seus radicais adicionaram alguma desinência a esta raiz. As desinências –ya e –ta são de longe as mais comuns. Por exemplo, a raiz TUL "vir, aproximar" produz não apenas o verbo básico tul– "vir, chegar", mas também os radicais A mais longos tulta– "invocar, chamar" e tulya– "trazer". Aqui as desinências são vistas modificando o significado da raiz; neste caso, tanto –ta como –ya são causativas, uma vez que "invocar" e "trazer" são variações da idéia "fazer vir". Mas com freqüência, as desinências parecem não fazer diferença para o significado (a raiz SIR "fluir" produz o verbo básico em quenya sir– de mesmo significado, mas em um idioma relacionado, o verbo derivado sirya– é usado para o mesmo significado: LR: 384). Alguns verbos radicais A mostram desinências menos freqüentes como –na (ex: harna– "ferir", aparentemente derivada do adjetivo ou particípio harna "ferido"); existem também alguns radicais A que terminam em uma simples desinência –a; ex: ora– "impelir".
São conhecidos cinco tempos em quenya: aoristo, presente, pretérito, perfeito e futuro. (Com toda a probabilidade, Tolkien também imaginou outros tempos, como o mais-que-perfeito – mas tais formas não são exemplificadas no nosso material.)
O aoristo é a forma mais simples tanto por seu significado como pelo aspecto. O significado básico do verbo não é modificado ou limitado de qualquer maneira em particular. O aoristo pode expressar verdades universais, como quando os elfos são descritos como i carir quettar "aqueles que criam palavras" (WJ: 391). Contudo, ele pode igualmente descrever uma simples ação corrente, como no grito de guerra ouvido antes da Nirnaeth Arnoediad: Auta i lómë! "A noite está passando!" Neste contexto, a tradução "está passando" é o melhor equivalente em português, mas o aoristo auta como tal simplesmente significa "passa" e não indica explicitamente a ação como corrente (como o faz o tempo presente do quenya, veja abaixo). Ordinariamente falando, o aoristo do quenya aparentemente corresponde ao presente do indicativo do português (em oposição à construção "está …-ndo"). Assim Tolkien freqüentemente o traduzia; ex: na primeira linha do Namárië: Ai! laurië lantar lassi súrinen, "ah! douradas caem as folhas ao vento ".
O aoristo de um verbo básico originalmente apresentava a desinência –i. Em quenya, o –i curto final –i de estágios mais primitivos do élfico transformaram-se em –ë, de modo que agora o aoristo de um verbo primário como car– "criar, fazer" apareceu, ao invés disso, como carë (esta forma pode ser traduzida "cria" ou "faz"). Entretanto, uma vez que a vogal apenas mudava quando ela ocorria no final de uma palavra, ainda vemos –i– sempre que qualquer tipo de desinência adicional é inserida. Quando um verbo finito em quenya ocorre com um sujeito no plural, o verbo recebe a desinência de plural –r, de modo que o aoristo carë "cria" corresponde a carir "criam" na frase "aqueles que criam palavras" citada acima. Também vemos –i– antes de todas as desinências pronominais; realmente, Tolkien com muito freqüência cita os verbos primários em quenya como formas aoristas com a desinência –n "eu" anexada (ex: carin "eu crio", LR: 362, tulin "eu venho", LR: 395). Verbos radicais A não mostram variação, mas terminam em –a seguindo-se ou não uma desinência adicional (ex: lanta "cai", lantar "caem" com um sujeito no plural, lantan "eu caio", etc.)
O que às vezes é chamado de tempo presente em quenya também é mencionado como a forma continuativa. Ele se refere a uma ação que é claramente identificada como corrente, e é freqüentemente melhor traduzido por meio da construção "está… -ndo" em português. O tempo presente de um verbo básico é formado ao se adicionar a desinência –a e ao se alongar a vogal do próprio radical (a vogal longa sendo indicada por um acento). Assim, o verbo sil– "brilhar" possui a forma de tempo presente síla "está brilhando"; o verbo mat– "comer" possui a forma de tempo presente máta "está comendo" (ou com sujeitos no plural, sílar "estão brilhando", mátar "estão comendo"). Algumas vezes Tolkien traduz as formas de tempo presente do quenya por meio do presente do indicativo do português, como na famosa saudação elen síla lúmenn' omentielvo = "uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro". Parece que o aoristo e o presente são de certa forma intercambiáveis; em uma versão em rascunho dessa saudação, Tolkien de fato usou o aoristo silë "brilha" ao invés da forma de tempo presente síla "está brilhando" (ver RS: 324).
Quanto ao tempo presente de verbos radicais A, a interpretação tradicional da gramática do quenya é a de que a desinência –a simplesmente fundiu-se com o –a final já presente no fim do radical verbal, de forma que (dizem) lanta– "cair" teria o tempo presente lanta "está caindo". Esta forma pareceu ser atestada na primeira linha do Namárië (com a desinência –r combinando com o sujeito no plural lassi "folhas"): Laurië lantar lassi, "douradas caem (as) folhas", ou "folhas douradas estão caindo". Contudo, parece que a forma lantar é na verdade um aoristo (cf. acima). Em julho de 2000, novos exemplos apareceram no Vinyar Tengwar #41: o verbo radical A ora– "impelir" é mostrado possuindo o tempo presente órëa "está impelindo". Isto pareceria indicar que verbos radicais A na verdade possuem formas de tempo presente em –ëa: aparentemente o –a final do radical torna-se –ë– para evitar dois a's em seqüência quando a desinência –a, associada com o tempo presente, é adicionada. Onde não há encontro consonantal sucedendo a vogal raiz, ela é alongada da mesma forma que no caso de verbos básicos: assim, órëa de ora-. Seja como for, a maioria dos radicais A possui um encontro consonantal sucedendo a vogal raiz e, na frente de um encontro, o quenya não pode ter uma vogal longa. Não temos exemplos, mas pode-se supor que um radical A como lanta– "cair" possui o tempo presente lantëa "está caindo" (pl. lantëar "estão caindo"): uma vez que a vogal raiz não pode ser alongada nesta posição, apenas a desinência –ëa nos diz que esta é uma forma de tempo presente (ou contínua).
O pretérito do quenya sempre apresenta a vogal final –ë (embora desinências secundárias possam, é claro, ser adicionadas; por exemplo, vemos –er onde o verbo possui um sujeito no plural). Esta vogal –ë é com freqüência parte da desinência –në, que parece ser o indicador de pretérito mais comum em quenya. Verbos radicais A tipicamente adicionam esta desinência. Por exemplo, o verbo orta– "erguer, levantar" é listado no Etimologias (entrada ORO, LR: 379), e a canção Namárië no SdA demonstra que seu pretérito é ortanë. Outros exemplos atestados:
ulya– "verter, derramar", pretérito ulyanë (LR: 396 s.v. ULU)
hehta– "abandonar", pretérito hehtanë (WJ: 365)
ora– "impelir", pretérito oranë (VT41: 18)
Quanto aos verbos primários, o quadro é um tanto mais diverso. Quando tais verbos terminam em –r ou –m, eles podem receber a desinência –në assim como os verbos radicais A, visto que os encontros resultantes rn e mn são permitidos pela fonologia do quenya. Exemplos do Etimologias incluem tirnë como o pretérito de tir– "observar, guardar" e tamnë como o pretérito de tam– "bater (de leve em)" (ver entradas TIR, TAM). Uma vez que o nn duplo também é um encontro admissível em quenya, pode-se supor que verbos primários em –n também recebem a desinência –në; por exemplo, parece um bom palpite dizer que o verbo cen– "ver" possui o pretérito cennë "viu" (não atestado em material publicado).
Contudo, verbos primários em –p, –t, e –c não podem receber a desinência –në, uma vez que os encontros pn, tn e cn que surgiriam não são permitido em quenya. Este problema é solucionado ao se substituir o elemento nasal da desinência –në pela infixação nasal introduzida antes da consoante final do radical verbal. O infixo nasal aparece como m antes de p; antes de t ele simplesmente é n, e antes de c (k) ele é pronunciado como o ng da palavra inglesa king, mas ele ainda é escrito n: compare a pronúncia do "nk" ortográfico do inglês como em think. Exemplos do Etimologias (ver entradas TOP, SKAT e TAK):
top– "cobrir", pretérito tompë
hat– "quebrar, romper", pretérito hantë
tac– "atar, ligar", pretérito tancë
Verbos primários que possuem –l como sua consoante final parecem entregar o elemento nasal completamente; o pretérito de vil– "voar" é dado como villë (LR: 398 s.v. WIL). Talvez vil– (wil– como mais antigo) originalmente formava seu pretérito por meio de infixação nasal de modo parecido com os verbos acima, mas *winle eventualmente transformou-se em villë por assimilação. (Para este desenvolvimento do grupo nl mais antigo em quenya, compare o substantivo nellë "riacho", que Tolkien produziu a partir de nenle mais antigo: ver a entrada NEN no Etimologias, LR: 376.)
O tempo perfeito expressa a idéia de uma ação que foi completada no passado, mas que ainda é "relevante" para o momento presente, geralmente porque seus efeitos ainda são sentidos. O português não possui um tempo perfeito unitário, mas emprega uma circunlocução envolvendo o verbo "ter", como em "ele tem vindo (veio)". O quenya possui um tempo perfeito unitário. A sua formação é um tanto complexa. Todas as formas do perfeito recebem a desinência –ië (ou, com o sujeito no plural, –ier). A vogal do radical verbal é, se possível, alongada. Assim, a partir do radical tul– "vir" temos o tempo perfeito utúlië "tem vindo (veio)". Como vemos, um prefixo u– também aparece aqui. Este prefixo, chamado de aumento, é nada verdade variável em forma, uma vez que ele sempre é idêntico à vogal do próprio radical verbal. Assim:
mat– "comer" vs. amátië "tem comido (comeu)"
tec– "escrever" vs. etécië "tem escrito (escreveu)"
ric– "torcer, girar" vs. irícië "tem torcido, girado (torceu, girou)" (atestado em VT39: 9)
not– "contar" vs. onótië "tem contado (contou)"
tuv– "encontrar" vs. utúvië "tem encontrado (encontrou)" (ao encontrar a muda da Árvore Branca, Aragorn exclama utúvienyes = "Encontrei-a [lit. eu a tenho encontrado]")
Em algumas das formas mais primitivas do quenya de Tolkien, encontramos formas de tempo perfeito sem aumentos, como por exemplo lendië (ao invés de elendië) para "tem ido (foi)" ou "tem viajado (viajou)" (a forma lendien em SD: 56 – incorporando o sufixo –n "eu" – pode ser interpretada "eu tenho viajado (viajei)"). Ocasionalmente, o aumento também é omitido em fontes pós-SdA; ex: fírië ao invés de ifírië para "tem falecido (faleceu)" em MR: 250 (verbo fir– "falecer, desvanecer, morrer"). O exemplo lendië também é desprovido da vogal raiz longa geralmente associada com o tempo perfeito (e não *léndië). Isto acontece porque o quenya não pode ter uma vogal longa imediatamente na frente de um encontro consonantal, e a maioria dos verbos radicais A possuem um encontro consonantal sucedendo a vogal raiz que normalmente seria alongada no tempo perfeito. Estão faltando bons exemplos tolkienianos, mas pode-se supor que, exceto por este alongamento, o tempo perfeito de verbos derivados seja formado como no caso de verbos primários: prefixando a vogal raiz como um aumento e adicionando a desinência –ië (esta desinência substituindo o –a final de tais verbos derivados):
panta– "abrir" vs. apantië "tem aberto (abriu)"
menta– "enviar" vs. ementië "tem enviado"
tinta– "acender" vs. itintië "tem acendido (acendeu)"
costa– "brigar, disputar" vs. ocostië "tem brigado, disputado (brigou, disputou)"
tulta– "invocar, chamar" vs. utultië "tem invocado, chamado (invocou, chamou)"
Entretanto, os verbos derivados mais simples, com apenas a desinência curta –a, também podem apresentar o alongamento normal da vogal raiz (uma vez que não há encontro consonantal sucedendo a vogal). Um verbo como mapa– "agarrar, segurar" pode, portanto, formar seu tempo perfeito como se fosse um verbo primário **map-: o tempo perfeito provavelmente sendo amápië. Os numerosos verbos radicais A em –ya podem se comportar de modo parecido. Quando a desinência de perfeito –ië é adicionado a um verbo em –a, regularmente retirando o –a final, podemos esperar a combinação final **-yië, mas o quenya não pode ter y + i. Assim sendo, –yi– é simplificado para –i-, de modo que nada é deixado da desinência original –ya. Em resumo, o tempo perfeito de um verbo em –ya pode ser formado como se esta desinência na verdade não estivesse presente, deixando apenas a raiz básica do verbo, que necessariamente comporta-se como um verbo primário no tempo perfeito. Podemos ter um exemplo atestado: no Etimologias, Tolkien listou o verbo vanya– "ir, partir, desaparecer" (LR: 397 s.v. WAN). O que poderia ser seu tempo perfeito, avánië, aparece no Namárië (com a desinência de plural –r para concordar com um sujeito no plural; Galadriel canta yéni avánier, traduzido "os longos anos se passaram", mais literalmente "…têm acabado (acabaram)"). A forma avánië mostra todas as características que um verbo no tempo perfeito pode ter: prefixação da vogal raiz como um a– aumento, alongamento da vogal raiz para á em sua posição normal e sufixação da desinência –ië (retirando completamente o –ya de vanya-). Em outra fonte pós-SdA, Tolkien tratou desta forma de tempo perfeito que ocorre no Namárië e a (re-?)interpretou como o tempo perfeito de verbo muito irregular auta– "ir embora": ver WJ: 366. Contudo, parece inteiramente possível que, quando Tolkien realmente escreveu o Namárië mais de uma década antes, ele tenha pensado em avánië como o tempo perfeito do verbo vanya-. Assim sendo, este exemplo revela como os numerosos verbos em –ya se comportam neste caso. Talvez o verbo vanya– tenha sido abandonado posteriormente por entrar em conflito com o adjetivo vanya "belo".
O tempo futuro possui a desinência –uva (ou, com um sujeito no plural, –uvar). Por exemplo, o futuro do verbo básico mar– "habitar, morar" ocorre no Juramento de Elendil: maruva "irá morar" (lá com a desinência pronominal –n "eu" anexada: sinomë maruvan, "neste lugar irei morar"). A vogal final de verbos radicais A parece desaparecer antes da desinência –uva; exemplos atestados incluem linduva como o futuro de linda– "cantar" e aparentemente oruva como o futuro de ora– "impelir". A forma antáva como o futuro de anta– "dar" (LR: 63) é um exemplo divergente; aqui a desinência mas simples –va é empregada, combinada com o alongamento da vogal final do radical verbal. Contudo, a forma antáva vem de uma fonte pré-SdA; Tolkien pode ter revisado o idioma posteriormente. Os outros exemplos que temos sugerem que, no quenya no estilo do SdA, o futuro de anta– deva ser antuva (não atestado).
O tempo futuro também é usado como um tipo de "fórmula de desejo" introduzida pela palavra nai "seja que" ou "possa ser que". Assim, uma forma de tempo futuro como tiruvantes "eles o guardarão" (tiruva "observarão/guardarão" + –nte "eles" + –s "o") pode ser usada para expressar um desejo ao se prefixar nai: o Juramento de Cirion possui nai tiruvantes para "seja que eles o guardem" ou "possam eles guardá-lo" (CI: 340, 498).
Outras formas: em acréscimo aos cinco tempos (conhecidos), o verbo do quenya também pode aparecer em formas como infinitivo, gerúndio e imperativo. O infinitivo de um verbo básico (ex: quet– "falar") apresenta a desinência –ë, como no exemplo polin quetë "eu posso falar" (VT41: 6). Verbos radicais A aparentemente não apresentam desinência especiais no infinitivo; o radical e o infinitivo são simplesmente idênticos (por exemplo, o verbo lelya– "ir", infinitivo lelya). Assim, o infinitivo é idêntico em forma a um aoristo (sem desinência). O quenya também possui um infinitivo estendido que adiciona a desinência –ta; quando adicionada ao infinitivo de um verbo básico, sua desinência –ë aparece como –i-: enquanto que o infinitivo mais simples do verbo car– "fazer, criar" é carë, seu infinitivo estendido é dessa forma carita. O infinitivo estendido pode receber desinências pronominais indicando o objeto do infinitivo; ex: –s "o, a, isto" em caritas "fazer isto".
O infinitivo estendido também pode funcionar como um gerúndio, isto é, um substantivo verbal cujo equivalente em inglês é formado com a desinência –ing (-ndo no português; contudo, muitas vezes não há um equivalente satisfatório em português, pois a forma –ing inglesa também é usada para formar substantivos e alguns infinitivos; as adaptações necessárias serão feitas aqui [N. do T.]) (Esta desinência inglesa também é usada para formar particípios ativos, mas eles são bem distintos em quenya, terminando em –la.) Um infinitivo estendido pode ser visto funcionando como um gerúndio na frase lá carita i hamil mára alasaila ná, "não fazer ["fazendo"] o que você julga bom seria insensato" (VT42: 33). Outra desinência infinitiva/ gerundial é –ië, como no substantivo verbal tyalië "jogo, brincadeira" vs. o verbo básico tyal– "jogar, brincar". O –a final de um verbo radical A aparentemente seria omitido antes da desinência –ië ser adicionada (e no caso de um verbo terminando em –ya, toda esta desinência teria que desaparecer, uma vez que **-yië seria uma combinação impossível). Combinados com a desinência dativa –n "para, a", tais gerúndios em –ië podem expressar o significado de infinitivos significando "[a fim de] fazer": o verbo enyal– "recordar, rememorar" é atestado na forma enyalien "[para] rememorar/comemorar", que Tolkien explicou como um gerúndio declinado para o dativo (CI: 497).
O imperativo pode ser formado ao se colocar a partícula independente de imperativo á na frente de uma forma parecida com o infinitivo mais simples (ou aoristo sem desinência). Assim, de carë "fazer" pode ser formado a expressão imperativa á carë "faça!" ou "crie!" A partícula imperativa também pode aparecer na forma mais curta a, como quando os Portadores do Anel são saudados com o grito a laita te! "louvai-os!" no Campo de Cormallen. (Possivelmente a forma curta a é preferida quando há uma vogal longa ou ditongo no radical verbal que se sucede, como o ditongo ai do verbo laita– "abençoar, louvar".) Um negativo imperativo pode ser introduzido por áva "não!"; ex: áva carë "não faça [isto]!" (WJ: 371).
Existem também algumas formas atestadas de imperativo que não incluem a partícula independente de imperativo, mas empregam a desinência relacionada –a. Desse modo temos exclamações como ela! "olhe!" ou heca! "suma!" (WJ: 364). Cf. também ëa! como o imperativo do verbo "existir", usado por Eru Ilúvatar ao conceder existência independente à Música dos Ainur: "Eä! Que essas coisas Existam!" Não se sabe o quão produtiva Tolkien pretendia que esta formação fosse. É possível que verbos básicos possam ter formas imperativas alternativas com a desinência –a (distintas do tempo presente, uma vez que a vogal raiz não é alongada). Por exemplo, talvez o imperativo de car– "fazer" possa se *cara! assim como á carë!
Verbos especiais: nem todos os verbos em quenya se ajustam facilmente no sistema esboçado acima. "Irregularidades" são com freqüência historicamente justificadas em termos da evolução fonológica fundamental que Tolkien tinha em mente e, nesta perspectiva, os verbos não são de modo algum irregulares. Então vamos falar de verbos "especiais" ao invés de "irregulares".
Um exemplo de "irregularidade" historicamente justificada é fornecido ao verbo rer– "semear". Poderíamos supor que seu pretérito fosse **rernë; cf. exemplos como tir– "observar", pretérito tirnë. Mas o verdadeiro pretérito "semeou" é rendë. A discrepância é facilmente explicada: enquanto o verbo tir– "observar" reflete diretamente a raiz primitiva TIR, de modo que o r tem sido r desde o início, o –r final do verbo rer– "semear" na verdade vem de um d primitivo: a raiz original é RED (LR: 383). O pretérito rendë é formado por simples infixação nasal desta raiz, tanto que este pretérito é na verdade completamente análogo a (digamos) quentë como o pretérito regular de quet– "dizer, falar". Porém, como o quenya evoluiu do élfico primitivo, um d original sucedendo uma vogal geralmente se tornava z e então r. Assim, a raiz RED produziu o verbo primário rez– > rer-, mas na forma de pretérito rendë, o infixo nasal "protegeu" o d original da vogal antecedente. Desse modo ele permaneceu d. – Outros verbos que podem pertencer a esta categoria incluem hyar– "fender", ser– "descansar" e nir– "apertar, empurrar", visto que eles são derivados das raízes SYAD, SED e NID (ver VT41: 17 sobre a última). Entretanto, as formas de pretérito hyandë, sendë e nindë não são explicitamente mencionadas em material publicado.
Uma forma atestada que pertenceria a esta categoria é lendë "foi" como o pretérito do verbo "ir, viajar". A forma lendë surge por infixação nasal de uma base LED (listada no Etimologias; de acordo com WJ: 363, ela é reformada a partir de DEL ainda mais antiga). A forma básica do verbo "ir" é lelya– (de ledyâ mais antigo), de modo que o pretérito lendë também ilustra outro fenômeno: alguns verbos em –ya omitem esta desinência no pretérito, que é então formado da mesma maneira como se estivéssemos lidando com um verbo primário. Especialmente interessante a esse respeito é o verbo ulya– "verter, derramar", que Tolkien observou como um pretérito duplo: "verteu" no sentido transitivo, como em "o homem verteu água em uma taça", é ulyanë com a desinência normal de pretérito –në adicionada a –ya: uma forma perfeitamente "regular" de acordo com as regras estabelecidas acima. Porém, o pretérito "verteu" no sentido intransitivo, como em "o rio verteu para dentro do desfiladeiro", é ullë – como se este fosse um verbo primários *ul– ao invés de ulya-. (Compare com villë, como o pretérito de vil– "voar".) Isto sugere que verbos intransitivos em –ya perdem esta desinência no pretérito. Alguns outros verbos intransitivos podem parecer sustentar esta teoria, embora Tolkien tenha listado apenas as estranhas formas de pretérito sem explicá-las: já mencionamos (ledyâ >) lelya– "ir", pretérito lendë; outros exemplos incluem farya– "bastar, satisfazer", pret. farnë, e vanya– "ir, partir, desaparecer", pret. vannë (ao invés das formas "regulares" **lelyanë, **faryanë e **vanyanë).
Como já mencionamos, Tolkien pode ter substituído o verbo vanya– "desaparecer" por auta– "ir embora, partir", que possui um conjunto duplo de pretérito e tempo perfeito: pretérito oantë com o perfeito oantië se o verbo é usado com referência a deixar fisicamente um lugar e ir para outro, mas com pretérito vánë e perfeito avánië quando o verbo é usado com o sentido de desaparecer ou morrer gradualmente. A palavra vanwa "foi, perdeu, desapareceu, partiu" é dita ser o "particípio passado" deste verbo, embora ela pareça tão irregular que bem poderia ser tratada como um adjetivo independente. Ver WJ: 366.
Enquanto que o pretérito da maioria dos verbos envolve uma nasal, tanto na forma de infixação nasal (como em quentë "disse" a partir de quet– "dizer") como parte da desinência longa de pretérito –në, há alguns verbos que não apresentam elemento nasal no pretérito. Ao invés disso, o pretérito é formado ao se alongar a vogal raiz e adicionando a desinência –ë. O pretérito lav– "lamber" é visto como lávë (composto no Namárië: undulávë = "mergulhou", isto é, "cobriu completamente"). O verbo negativo um– "não ser/estar" ou "não fazer" possui semelhantemente o pretérito úmë. Porém, a maioria das palavras formadas desta maneira a partir de verbos não são formas de pretérito, mas substantivos abstratos. Por exemplo, a palavra sérë liga-se ao verbo ser– "descansar", mas sérë não é o pretérito "descansou"; ela significa "descanso", um substantivo. A formação de pretérito representada por palavra como lávë e úmë é desse modo bastante ambígua por sua forma, e talvez seja por isso que ela não é muito usada.
Alguns verbos em –ta podem omitir esta desinência no pretérito, e o que permanece do radical verbal forma seus pretéritos conforme o modelo de úmë. Por exemplo, o verbo onta– "gerar, criar" pode possuir a forma de pretérito ónë (como uma alternativa à forma regular ontanë). Evidência indireta do SdA sugere que o verbo anta– "dar" pode agir da mesma maneira: pretérito ánë ao invés da (ou assim como a) forma regular antanë, por si só não atestada (enquanto que ánë aparece em material mais antigo). A forma em sindarin onen "eu dei", mencionada em uma apêndice do SdA, corresponderia ao quenya ánen (a desinência –n significando "eu").
O verbo "ser/estar": as únicas formas atestadas deste verbo são ná "é/está", nar "são/estão" e nauva "será/estará". O pretérito "foi/estava" pode ser né. As formas de infinitivo de perfeito são incertas e não atestadas.
O adjetivo
laiqua "verde"
alassëa "feliz" (de alassë "felicidade")
númenya "ocidental" (de númen "oeste")
vanya "belo"
morna "negro"
melda "querido, amado" (originalmente *melnâ; as desinências -na e -da podem às vezes ter a mesma origem, o n sendo diferenciado de d após l)
Existe também um número de adjetivos terminando em ë, como carnë "vermelho", varnë "moreno" ou inimeitë "feminino". Pode ser observado que, em quenya maduro, parece não haver adjetivos em –o ou –u. Relativamente poucos adjetivos terminam em uma consoante – tipicamente n, como em firin, qualin "morto" (de causa natural e por acidente, respectivamen-
te).
Adjetivos concordam em número com o substantivo que eles descrevem. Adjetivos em –a possuem formas plurais em –ë, adjetivos em –ë ou em uma consoante possuem formas plurais em –i, e adjetivos em –ëa possuem formas plurais em –ië:
vanya vendë "uma bela donzela" > vanyë vendi "belas donzelas"
carnë parma "um livro vermelho" > carni parmar "livros vermelhos"
laurëa lassë "uma folha dourada" > laurië lassi "folhas douradas"
firin casar "um anão morto" > firini casari "anões mortos"
Assim, na primeira linha do Namárië, encontramos laurië lantar lassi, "como ouro (lit. douradas) caem as folhas", enquanto que "dourada cai uma folha" seria laurëa lanta lassë (tanto o verbo como o adjetivo concordando com lassë, lassi "folha, folhas" em número).
O presente escritor certa vez pensou que o nome do jornal Vinyar Tengwar continha um erro; se o significado pretendido fosse "Letras Novas", teria que ser Vinyë Tengwar (vinya "novo", tengwa "letra"). Mas como Carl F. Hostetter subseqüen- temente explicou, o significado pretendido é "Cartas de Notícias", de modo que vinya está declinado como um substantivo. Este escritor ainda estava cético sobre toda a construção e achou que ela deveria ser Tengwar Vinyaron "Cartas de Notícias" ou algo parecido, mas o material que tem sido publicado mostra que "compostos soltos" deste tipo são realmente possíveis. (Uma última linha de defesa queixosa: tengwa "letra" é atestada apenas com o significado de "caractere", e não de "carta, correio"!) Pode-se notar que em algumas variantes mais primitivas de quenya (ou "qenya"), os adjetivos realmente tinham formas plurais em –r; cf. LR: 47, onde raikar é usado como a forma plural de raika "curvo". Tolkien revisou a gramática posteriormente.
Uma forma intensiva ou superlativa do adjetivo é formada ao se prefixar an-: calima "brilhante", ancalima "a mais brilhante (de, do, da)" (Letters: 279). Não sabemos como construir o comparativo ("mais brilhante"), embora o elemento yanta– seja comparado ao gnômico gantha– "mais" em uma lista de palavras muito antiga compilada por Tolkien (ver Parma Eldalambe- ron No. 11 pág. 37, onde a leitura errada "yonta" ocorre; este erro foi apontado no Parma Eldalamberon No. 12 pág. 106 – contudo, a última fonte também indica que yanta– é na verdade o verbo "alargar, aumentar", de forma que esta não pode ser uma palavra para "mais" no final das contas).
Os particípios
O particípio passado (ou passivo) descreve a condição na qual você está se você é exposto à ação do verbo correspondente (se alguém vê você, você é visto; se alguém mata você, você estará, por conseguinte, morto), ou, no caso de alguns verbos, a condição na qual você se encontra após ter executado a ação descrita pelo verbo (se você vai, você, por conseguinte, terá ido). Em quenya, a maioria dos particípios passados são formados a partir do verbo correspondente com a desinência –na ou –ina. O particípio passado de car– "criar" é carna "criado"; o radical rac– significa "quebrar", enquanto que rácina é "quebra- do" (se não houver um encontro consonantal sucedendo a vogal raiz, esta vogal parecer ser alongada quando a desinência de particípio é adicionada, como a > á neste caso). Se o radical termina em l, a desinência –na é diferenciada de –da: mel– "amar", melda "amado".
O particípio passado provavelmente concorda em número com o substantivo que ele descreve (com –a final se tornando –ë no plural, assim como adjetivos normais), mas o particípio presente não muda –la para –lë como se podia supor; ele parece ser indeclinável (MC: 222: rámar sisílala "asas brilhando", e não **rámar sisílalë). Talvez isto seja como é evitar confusão com a desinência de substantivo –lë "-ing (em inglês)" (como em Ainulindalë "a Música dos Ainur", literalmente *"Canto Ainu").
Pronomes
Uma coisa, pelo menos, está perfeitamente clara: os pronomes em quenya geralmente aparecem como desinências diretamen- te sufixadas a um verbo ou substantivo, e não tão freqüente como palavras independentes, como em português. Exemplos do Namárië são as palavras máryat e hiruvalyë. Máryat significa "suas mãos", "suas" sendo expressa pela desinência pronomi- nal –rya (aqui sucedida pela desinência dual –t para indicar um par natural de mãos). Hiruvalyë é "tu encontrarás", "tu" sendo expresso pela desinência pronominal –lyë adicionada ao verbo hiruva "encontrará(s)". Cf. também a desinência –n "eu" nas palavra de Elendil Endorenna utúlien, "para a Terra-média eu vim" (utúlië-n "vim-eu").
Esta é uma tentativa, e nada mais, de compilar uma tabela das desinências pronominais usadas em verbos:
1. pessoa sing: –n ou –nyë "eu"
2. pessoa sing e pl, polido: -l ou -lyë "tu, vós"
2. pessoa sing e pl, familiar: *-ccë "você" (baseado em uma desinência em sindarin –ch, muito hipotética!)
3. pessoa sing: –s "ele, ela" (também podem ser formas específicas de gênero –ro "ele", –rë "ela")
1. pessoa pl. –mmë: "nós" (exclusiva), –lmë "nós" (inclusiva)
1. pessoa dual *-lvë: "nós" (inclusiva, "tu e eu" – é possível que esta devesse ser, ao invés disso, *-lwë)
3. pessoa plural –ntë "eles"
Note que há uma distinção entre "nós" exclusivo e inclusivo, despendendo se a pessoa a que se dirige está incluída em "nós" ou não. Note também que –lmë é a inclusiva, e não o "nós" exclusivo – o "nós" exclusivo é –mmë! A desinência *-lvë (ou *-lwë?) é o "nós" inclusivo dual, isto é, "nós" significando "tu e eu", e não o "nós" inclusivo (plural) geral. Esta parte do sistema pronominal do quenya por muito tempo foi mal interpretado (no An Introduction to Elvish de Jim Allan , no Basic Quenya de Nancy Martsch, etc, etc.)
Exemplo: lendë "foi", lenden ou lendenyë "eu fui", lendel ou lendelyë "vós fostes [polido]", lendeccë "você foi [familiar]', lendes "ele/ela/ foi", lendemmë "nós [exclusivo] fomos", *lendelmë "nós [inclusivo] fomos", lendelvë (ou ao invés disso lendelwë?) "nós [= tu e eu] fomos", lendentë "eles foram". O objeto também pode ser expresso como uma desinência pronominal adicionada diretamente ao verbo, sucedendo a desinência indicando o sujeito. Cf. a exclamação de Aragorn quando ele encontrou a muda da Árvore Branca: Utúvienyes!, "Encontrei-a!" (utúvie-nye-s "encontrei-eu-ela"; SdA3/VI cap. 5), ou uma palavra do Juramento de Cirion: tiruvantes "eles o guardarão" (tiruva-nte-s "guardarão-eles-o, CI: 340).
Como indicado pela palavra máryat "suas mãos" tratada acima, mesmo pronomes possessivos como "sua, seu, meu" são expressos por desinências em quenya, adicionadas diretamente ao substantivo (neste caso, má "mão"). As desinências possessivas usadas em substantivos em sua maioria correspondem às desinências pronominais usadas em verbos, mas possuem a desinência –a:
1. pessoa sing: –nya "meu"
2. pessoa sing e pl, polido: -lya "teu, *vosso"
2. pessoa sing e pl, familiar: *-cca "seu" (baseado em uma desinência em sindarin, muito hipotética!)
3. pessoa sing: –rya "seu, sua (dele, dela)"
1. pessoa pl: *–mma: "nosso" (exclusivo), *-lma "nosso" (inclusivo)
1. pessoa dual: *-lva: "nosso" (inclusivo, "teu e meu" – talvez devesse ser *-lwa)
3. pessoa pl.: *-nta "deles"
Exemplo: parma "livro", parmanya "meu livro", parmalya "vosso livro (polido)", parmacca "seu livro (familiar)", parmarya "livro dele, dela)", parmamma "nosso (exclusivo – não o seu!) livro", parmalma "nosso (incluindo o seu) livro", parmalva (ou parmalwa?) "nosso (teu e meu) livro", parmanta "livro deles" (o último dos quais não deve ser confundido com o alativo dual "para um par de livros"). No caso de substantivos terminando em uma consoante, um e pode ser inserido entre o substan- tivo e a desinência possessiva; ex: macil "espada", *macilerya "sua espada (dele)". No plural, a desinência de plural –i pode servir para separar substantivo e desinência; ex: macili "espadas", maciliryar "suas espadas (dele)" – mas como vemos, uma desinência de plural adicional r aparece após o sufixo; cf. o próximo parágrafo. Há algumas indicações de que a desinência –nya "meu" sempre prefere i como sua vogal de ligação, mesmo no singular, como em Anarinya "meu Sol" em LR: 72 (Anar "Sol"). Assim, *macilinya "minha espada".
As formas com desinências possessivas são declinadas como substantivos normais. Exemplos construídos: nominativo parma- nya "meu livro" (pl. parmanyar "meus livros"), genitivo parmanyo "de meu livro" (pl. parmanyaron), possessivo parmanya- va "do meu livro" (pl. parmanyaiva), dativo parmanyan "para meu livro" (pl. parmanyain), locativo parmanyassë "no meu livro" (pl. parmanyassen), alativo parmanyanna "a meu livro" (pl. parmanyannar), ablativo parmanyallo "a partir do meu livro" (pl. parmanyallon, parmanyallor), instrumental parmanyanen "pelo meu livro" (pl. parmanyainen) – e respectivo parmanyas pl. parmanyais, seja o que for que isto signifique. Exemplos atestados são tielyanna "sobre seu caminho" em CI: 10 cf. 455 (tie-lya-nna "caminho-seu-sobre") e omentielvo "do nosso encontro" na famosa saudação elen síla lúmenn' omentielvo "uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro" (omentie-lva-o "encontro-nosso-do", a desinência genitiva –o retirando o –a final da desinência pronominal; cf. Vardo para **Vardao).
Entretanto, o quenya possui pronomes independentes em acréscimo às numerosas desinências tratadas acima. Alguns deles são enfáticos. As linhas finais do Namárië nos fornecem um bom exemplo disto. Na frase nai hiruvalyë Valimar "talvez tu encontrarás Valimar", "tu" é expresso com a desinência –lyë anexada ao verbo hiruva "encontrará", como explicado acima. Mas na frase seguinte, nai elyë hiruva "talvez mesmo tu a encontrará", o correspondente pronome independente elyë é usado para ênfase: por isso a tradução "mesmo tu". Outro pronome independente atestado é inyë "(mesmo) eu". Supõem-se que a maioria dos pronomes independentes são formados ao se prefixar e– à desinência pronominal correspondente, como *elmë "(mesmo) nós", mas a maior parte destas formas não são atestadas no nosso pequeno corpus. As palavras enfáticas para "ele, ela" são incertas.
Outros pronomes independentes, aparentemente não enfáticos, incluem ni "eu" (dativo nin "para mim" no Namárië), nye "me, mim", tye "te, ti, lhe", ta "o, a", te "os, as" (e *"eles"?), me "nós" (dual met "nós dois" no Namárië). "Ele, ela" pode ser so, se (cf. LR: 385).
APÊNDICE: EXEMPLOS DE SUBSTANTIVOS DO QUENYA DECLI- NADOS COMPLETAMENTE
1. CIRYA "navio" (um R-plural)
Singular: nominativo cirya "um navio", (acusativo ciryá apenas no arcaico quenya livresco), dativo ciryan "para um navio", genitivo ciryo "de um navio", possessivo ciryava "de um navio", locativo ciryassë "em um navio", alativo ciryanna "a um navio", ablativo ciryallo "a partir de um navio", instrumental ciryanen "com/por um navio", respectivo ciryas (significado desconhecido).
Plural: nominativo ciryar "navios", (acusativo ciryai em quenya livresco, posteriormente ciryar,) dativo ciryain, genitivo ciryaron, possessivo *ciryaiva (não na Plotz), locativo ciryassen, alativo ciryannar, ablativo ciryallon (ou *ciryallor, não na Plotz), instrumental ciryainen, respectivo ciryais.
Plural partitivo: nominativo ciryali *"alguns navios" (no arcaico "quenya livresco" ciryalí tanto no nominativo como no acusativo), dativo ciryalin, genitivo ciryalion, possessivo ciryalíva, locativo ciryalissë ou ciryalissen, alativo ciryalinna ou ciryalinnar, ablativo ciryalillo ou ciryalillon, instrumental ciryalínen, respectivo ciryalis.
Dual: nominativo ciryat "dois navios, um par de navios" (nenhum acusativo distinto em quenya arcaico?), dativo ciryant, genitivo ciryato, possessivo ciryatwa, locativo ciryatsë, alativo ciryanta, ablativo ciryalto, instrumental ciryanten, respectivo ciryates. No caso de um u-dual, contudo, a dualidade já é suficientemente expressa pelo sufixo –u, de modo que as desinências casuais normais sem t são (presumidamente) usadas: nominativo aldu "duas árvores", (acusativo *aldú,) genitivo *alduo, possessivo *alduva, dativo *alduen, alativo *aldunna, ablativo *aldullo, locativo *aldussë, instrumental *aldunen, respectivo *aldus.
2. LASSË "folha" (um I-plural)
Singular: nominativo. lassë "folha", (ac. lassé,) dativo lassen "para uma folha", genitivo lassëo "de uma folha", possessivo lasséva "de uma folha", locativo lassessë "em uma folha", alativo lassenna "a uma folha", ablativo lassello "a partir de uma folha", instrumental lassenen "com uma folha", respectivo lasses (significado desconhecido).
Plural: nom. lassi "folhas", (ac. lassí,) dat. lassin, gen. lassion, poss. *lassiva (não na Plotz), loc. lassessen, al. lassennar, abl. lassellon ou lassellor, inst. lassinen, resp. lassis.
Plural partitivo: nom. lasseli (em "quenya livresco" lasselí tanto no nom. como no ac.), gen. lasselion, poss. lasselíva, dat. lasselin, loc. lasselisse/lasselissen, al. lasselinna/lasselinnar, abl. lasselillo/lasselillon, instr. lasselínen, resp. lasselis.
Dual: nom/ac lasset "um par de folhas", dat. lassent, gen. lasseto, poss. lassetwa, loc. lassetsë, al. lassenta, abl. lasselto, inst. lassenten, resp. lassetes.
A Carta Plotz não fornece algum exemplo de um substantivo terminando em uma consoante, mas deve ser algo assim:
3. NAT "coisa"
Singular: nominativo nat "coisa", dativo *naten "para uma coisa", genitivo *nato "de uma coisa", possessivo *natwa "de uma coisa", locativo *natessë "em uma coisa", alativo *natenna "a uma coisa", ablativo *natello "a partir de uma coisa", instrumental *natenen "por/com uma coisa", respectivo *nates (significado desconhecido).
Plural: nom. *nati "coisas", (ac. *natí,) dat. *natin, gen. *nation, poss. *nativa, loc. *natissen, al. *natinnar, abl. *natillon ou *natillor, inst. *natinen, resp. *natis.
Plural partitivo: nom. *nateli (em "quenya livresco" *natelí tanto no nom. como no ac.), dat. *natelin, gen. *natelion, poss. *natelíva, loc. *natelisse/natelissen, al. *natelinna/natelinnar, abl. *natelillo/natelillon, instr. *natelínen, resp. *natelis.
Dual: nom/ac *natu "um par de coisas" (a desinência –u sendo preferida uma vez que o radical termina em um t): dat. *natuen, gen. *natuo, poss. *natuva, loc. *natussë, al. *natunna, abl. *natullo, instr. *natunen, resp. natus. Mas um radical consonantal não terminando em –t ou –d, como elen "estrela", provavelmente seria assim: nom/ac. *elenet "um par de estrelas", dat. *elenent, gen. *eleneto (*elento?), poss. *elenetwa, loc. *elenetsë, al. *elenenta (talvez contraída para *elenta), abl. *elenelto, inst. *elenenten (talvez contraída para *elenten), resp. *elenetes (*elentes?).
Poxa, Tolkien era um gênio! Eu andei lendo sobre as línguas élficas e achei o Ardalabion (logo após ler o Silmarilion) e devo agradecer por ter trazido conteúdo tão interessante.
Eu sinceramente acho o Quenya muito mais bonito que o Sindarin, mas vou procurar aprender os dois. Muito obrigado pelo site 🙂
Como escreve matar em quenya?